Céu Nossa Senhora da Conceição, "Xamã Gideon dos Lakotas", Coelho – MEDO

Coelho - MEDO Coelho – MEDO 
Abandone seus medos! 
Fugir não fará cessar a dor 
Nem derramara luz na escuridão.

Há muito, muito tempo, o Coelho era um guerreiro forte e destemido, cuja melhor amiga era uma bruxa chamada Olho Andante. Os dois eram verdadeiramente inseparáveis e passavam longas horas juntos, perdidos em conversas infindáveis sobre os mais diversos assuntos.

Um dia, Olho Andante e o Coelho caminhavam por uma estrada e, em determinado momento, pararam um pouco para descansar. O Coelho disse então:

– Estou com sede.

Olho Andante pegou uma rolha no chão e soprou sobre ela, transformando-a num cântaro cheio da mais pura e refrescante água, da qual o Coelho bebeu sem lazer qualquer comentário. Mais adiante, disse o Coelho:

– Estou com fome.

Olho Andante pegou então uma pedra à beira da estrada e soprou sobre ela, transformando-a num suculento nabo, que ofereceu ao Coelho. Este pegou o nabo de suas mãos, deliciou-se com ele mas seguiu em frente sem fazer qualquer comentário.

Ambos continuaram caminhando e logo alcançaram a trilha que conduzia as montanhas, pela qual enveredaram. Quando já estavam quase chegando ao cume da mais alta das montanhas, o Coelho escorregou e rolou montanha abaixo, quase sucumbindo na queda. Quando finalmente Olho Andante conseguiu chegar até seu amigo acidentado, parecia que o Coelho, todo estropiado, não teria mais condições de viver. Contudo, Olho Andante empregou todos os seus conhecimentos de magia para soldar os ossos partidos e regenerar as horríveis feridas do Coelho, salvando sua vida. Ainda assim, o Coelho não lhe disse nenhuma palavra de agradecimento.

Alguns dias mais tarde, Olho Andante procurou por toda a parte pelo Coelho e não o encontrou, findando por desistir de tentar achá-lo, depois de muita busca. Pouco tempo depois, ela topou com o Coelho por acaso e perguntou-lhe:

– Coelho, você está me evitando, escondendo-se de mim?

– Sim – respondeu o Coelho assustado -, estou rugindo de você porque eu tenho medo de magia. Deixe-me em paz!

– Está bem – disse Olho Andante -, eu usei meus poderes mágicos para matar sua sede, saciar sua tome e salvar sua vida, e agora você me vira as costas e recusa minha amizade.

– Não quero ter mais nada a ver com você ou com seus poderes mágicos e espero nunca mais vê-la de novo! – retrucou o Coelho, sem sequer perceber as lágrimas que brotaram dos olhos da feiticeira ao ouvir suas palavras de ingratidão.

– Coelho – disse-lhe Olho Andante -, nós já fomos grandes amigos e é somente em nome de nossa antiga amizade que não o destruirei, apesar de poder fazê-lo com facilidade. Mas eu amaldiçôo você e todos os seus descendentes, fazendo com que vocês fiquem permanentemente chamando seus medos, que, de agora em diante, serão parte inseparável de sua personalidade.

E por isso que agora o Coelho é um Invocador de Medos. Quando o Coelho sai de sua toca ele grita: Águia, estou com tanto medo de ti!Se a Águia não o escuta da primeira vez, ele grita ainda mais alto: Fique longe de num, Águia! Até que ela percebe sua presença, mergulha sobre o Coelho e o devora, como também o fazem o Lobo, o Gato-do-mato, o Coiote e até mesmo a Cobra, quando o Coelho chama por eles.

A lição desta historia é que as pessoas do totem do Coelho temem tanto as doenças, as desgraças, as tragédias e a morte que acabam passando da doença à desgraça e da desgraça à tragédia até o dia em que, por fim, morrem, pois elas atraem constantemente aquilo que temem, para que essas coisas, ou essas experiências, possam lhes ensinar lições de destemer. Lembre-se de que tudo aquilo a que se resiste persiste, de forma que seus maiores temores sempre acabarão se tornando realidade.

À carta do Coelho pode pressagiar um período de grande inquietude em relação ao futuro ou de insensatas tentativas em controlar aquilo que é incontrolável pela própria natureza: o porvir. Pare imediatamente com isto! Anote seus medos numa rolha de papel, vivencie-os profundamente em sua imaginação e então laça como a feiticeira da lenda e sopre sobre eles, e perceba como seus medos se espalham ao vento indo para bem longe. Queime então a rolha de papel, livrando-se definitivamente de todo e qualquer temor. A lição do Coelho para você é a seguinte: pare de uma vez por todas de talar sobre as coisas horríveis que estão sempre acontecendo com você ou com quem quer que se)a e elimine inteiramente de seu vocabulário a expressão o que será de mim, se…”