Capítulo IX – A maconha do ponto de vista científico

Nesse capítulo apresenta fotos de tomográficas do cérebro humano de usuários, bem como sua comparação com cérebros de não usuários, comprovando os malefícios. É o estudo mais avançado realizado por equipe científica.

Introdução

Consideramos importante esta atual abordagem sobre o controvertido tema da maconha porque ainda persiste no mundo médico-científico uma divergência grande de opiniões, talvez por ignorarem os danos psico-neuro-sociais em toda a sua abrangência. Graças aos avanços recentes dos recursos tecnológicos (ressonância nuclear magnética, tomografias computadorizadas-CAT, PET, SPECT, mapeamentos cerebrais – eletroencefalogramas digitais, polissonografias e exames laboratoriais na área de psiconeuroendocrinologia) é que se pode esclarecer todas estas dúvidas que rondam o meio médico e, conseqüentemente, a população leiga.
A maconha é única do ponto de vista farmacológico. Não se assemelha a nenhuma outra droga conhecida. Suas ações clínicas são únicas, assim como as sustâncias químicas que contém em sua estrutura molecular (WEIL, 1986). A Cannabis sativa é a maconha cultivada no Hemisfério Ocidental, enquanto que a Cannabis indica é a maconha cultivada no hemisfério Oriental (SEYMOUR e SMITH, 1987).
Ao contrário do que se pensa a planta não é brasileira. Na realidade, foi trazida pelos escravos africanos da África Ocidental, que era lá usada para fins intoxicantes. Porém, a África já havia recebido a planta da Ásia, onde nasce espontaneamente ao pé das montanhas além do lago Baikal (DÓ RIA, 1986). Um imperador chinês de 2.200 a.C. já descreveu o uso da maconha (LEAVITT, 1995).
Os chineses reconheceram as propriedades psicoativas potentes da maconha há 4000 anos atrás, mas a sociedade Ocidental reconheceu suas propriedades intoxicantes apenas no século XIX, quando as tropas de Napoleão III retornaram à França com haxixe Egípcio. Um membro da Comissão de Ciências e Artes reportou em 1810 que a maconha cultivada no Egito era realmente intoxicante e narcótica (BEAR et aI., 2007).
A maconha foi descrita por vários pesquisadores como a droga ‘que é a “porta de entrada”; um estudo relata que 98% dos usuários da cocaína começaram com a maconha. Mas, apesar disso, existem lugares onde a maconha é permitida como medicamento o que faz com que a percepção de que a maconha é perigosa deixe de existir. À medida que a percepção do perigo da droga cai, seu uso sobe (AMEN,2000).
A planta cânhamo (Cannabis sativa), fonte da maconha, cresce em todo o mundo e floresce nas regiões temperadas e tropicais. É uma das plantas não comestíveis mais cultivadas no mundo. Seu principal componente psicoativo é o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), que é um alcalóide encontrado na resina que recobre os brotos fêmeos do cânhamo. Além do THC, a resina contém cerca de 60 compostos canabinóides, como o canabidiol e o canabino1. Todos eles bem menos ativos que o THC. (Cannabis and the brain Leslie Iversen Department of Pharmacology – University of Oxford Brain 2003; 126: 1252 – 70.)

Os produtos da Cannabis incluem a maconha, haxixe, bang, ganja e sinsemilla. Haxixe (charas), que consiste do exudato resinoso das inflorescências fêmeas, é a preparação mais potente, contendo cerca de 10 a 20 % de THC. Ganja e sinsemilla são produtos secos das flores das plantas fêmeas e contêm entre 5 a 8% de THC. Maconha e Bhang – também pode ser preparado em forma líquida – são as preparações mais fracas retiradas das folhas e às vezes das flores secas da planta e seu conteúdo de THC é de cerca de 2 a 5 %.

A planta maconha sintetiza pelo menos 400 substâncias químicas. Destas, mais de 60, incluindo o delta-9-tetrahidrocanabinol são canabinóides (LEAVITT, 1995). A estrutura química do THC é única, diferindo tanto da estrutura dos sedativos quanto da dos psicodélicos.

 

Composição

SÁ descreve 421 constituintes da maconha, sendo eles:

– Canabinóides (61 conhecidos), entre eles do tipo canabigerol, canabicromeno, canabidiol, delta-9-THC, delta-8-THC, canabiciclol, canabielsoin, canabinol, canabinodiol, canabitriol, miscelanio e outros;

– Compostos nitrogenados (20 conhecidos), entre eles: bases quaternárias, amidas, aminas e alcalóides espermidina;

– Aminoácidos (18 conhecidos);

– Proteínas, Glicoproteínas e Enzimas (9 conhecidos);

– Açúcar e compostos relacionados (34 conhecidos), entre eles:

monossacarídeos, dissacarídeos, polissacarídeos, ciclitóis e aminoaçúcar;

– Hidrocarbonetos (50 conhecidos);

– Álcool simples (7 conhecidos);

– Aldeídos simples (12 conhecidos); – Acetonas simples (13 conhecidos);

– Ácidos simples (20 conhecidos);

– Ácidos graxos (12 conhecidos);

– Ésteres simples e lactonas (13 conhecidos);

– Esteróides (11 conhecidos);

– Terpenos (103 conhecidos), entre eles: monoterpenos, sesquiterpenos,

diterpenos, triterpenos, miscelânea de compostos de origem terpenóide;

– Fenóis não canabinóides (16 conhecidos);

– Glicosídeos flavonóides (19 conhecidos);

– Vitaminas (1 conhecida);

– Pigmentos (2 conhecidos).

 

Estatísticas

A maconha é a droga ilícita mais consumida no mundo e o número de usuários vem crescendo a cada ano. Em 10 anos (1991 a 2001) houve um aumento de 5,4% do número de usuários nos EUA e também do teor de THC na maconha – 2,1%.

O uso na vida aumenta a cada ano, com início aos 12 (1%) e pico aos 19 (18%).

Aos 25 anos esta freqüência cai para 8 % e chega novamente em 1% entre 50 e 54 anos.

4 milhões de usuários jovens entre 18 e 24 anos (14%) são usuários freqüentes, a maioria homens (17%) seguido das mulheres (11%).

22% dos adultos jovens desempregados são usuários, sendo menor este uso por aqueles que estão empregados (13%) e também entre aqueles que trabalham meio período (15%).

Segundo pesquisa realizada com alunos do Ensino Médio e Fundamental, da rede pública de ensino, pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID (1997) a maconha é a droga ilícita mais usada no Brasil.

No levantamento de 1997, as capitais que apresentaram maior consumo foram Curitiba (11,9%) e Porto Alegre (14,4%). Constatou-se que 7,6% dos estudantes relataram já ter experimentado maconha uma vez na vida. No estudo realizado por Saibro e Ramos (2003), com 1586 estudantes, em 14 escolas públicas e privadas do ensino médio e fundamental de Porto Alegre, verificou-se que o uso de maconha teve seu pico de experimentação na faixa etária dos 14 aos 16 anos (72,5%), sendo a prevalência de uso na vida (uso experimental) de 21% nesta população. (Rigoni, M.; Oliveira, M; e Andretta, I. (2006). Conseqüências neuropsicológicas do uso da maconha em adolescentes e adultos jovens: uma revisão da literatura cientifica recente. Ciências & Cognição; Ano 03 Vol 08.)

Foi observado um aumento de registros de acidentes de automóveis, motos, trens e até caminhões, envolvendo motoristas consumidores de maconha. Um experimento com pilotos de aviação avaliou que a maconha é mais perigosa que o álcool e a mistura de ambas. Existem informações que o THC é 4000 vezes mais potente que o álcool ao produzir uma diminuição no desempenho de um motorista em condições adequadamente controladas (KALINA, 1997).

Em 1993, foram estudadas 175 pessoas detidas por dirigir “temerariamente”, sob a influência de cocaína ou maconha. Destes, 68 motoristas tinham teste de detecção da maconha positivo. 88% (60 pessoas) oscilaram entre estados moderados ou de extrema intoxicação e 12% (98 pessoas) não mostraram sinais de alteração. Em 18 casos, também foi detectada cocaína. Foram classificados 3 tipos de conduta de acordo com o estado de ânimo: 19% (8 pessoas) foram classificados como paranóides, briguentos e arrogantes, 62% (26 pessoas) como cooperativos, despreparados e felizes, e 19% (8 pessoas) como lentos e sonolentos (KALINA, 1997).

 

Sistema endocanabinóide

Sabe-se atualmente que o sistema nervoso central produz substâncias semelhantes ao THC – são os canabinóides endógenos – anandamida (N-aracdonil-etanolamina), o 2-aracdonilglicerol (2-AG) e o 2-aracdonilgliceril éter. Estes, juntamente com os receptores canabinóides e as enzimas de síntese e degradação, formam o sistema endocanabinóide.

A anandamida é a mais conhecida e estudada, mas o 2-aracdonilglicerol é o mais abundante. São sintetizados a partir de ácidos graxos de cadeia longa, principalmente o ácido aracdônico. Os canabinóides endógenos são secretados localmente, enquanto que o THC (principal psicoativo da maconha) atinge de uma vez sÓ todos os receptores CEl do cérebro. A ação dos canabinóides dura alguns segundos e o THC permanece horas no sistema nervoso central; por fim, a anandamida é cerca de 4 a 20 vezes menos potente que o THC.

Engeli e colegas mostraram que os endocanabinóides anandamida e 2-AG estão aumentados no plasma de humanos obesos e seus níveis estão inversamente relacionados com a atividade da FAAH (fofolipase-N-acilfosfatidiletanolamina-seletiva). Já foi demonstrado que o jejum aumenta os níveis de anandamida no intestino delgado, o que se relacionaria ao estímulo da ingesta alimentar (fome – “larica” na gíria).

O SNC também possui receptores específicos para os endocanabinóides e o THC. Há dois tipos de receptores conhecidos: o CB1, presente em todo o cérebro (próximo às terminações nervosas de neurônios pertencentes a outros sistemas) l’ o CB2, localizado em tecidos periféricos, principalmente no sistema imunológico.

Site: Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas) / Programa Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein.

As áreas do SNC com maior densidade de receptores são as seguintes, com as respectivas funções:

Córtex frontal – raciocínio, abstração, planejamento.

Núcleos da base – motricidade

Cerebelo – equilíbrio e coordenação

Sistema límbico – elaboração e expressão de fenômenos emocionais

a. Hipotálamo – coordenação das manifestações emocionais

b. Hipocampo – memória emocional e inibição da agressividade

c. Giro do cíngulo – controle dos impulsos

Os receptores canabinóides CB1 estão localizados nas membranas pré-sinápticas de diversos sistemas de neurotransmissão. Os receptores pré-sinápticos é que determinam a quantidade de neurotransmissores que será liberada nas sinapses. Portanto, o sistema canabinóide modula a ação de outros sistemas sobre o cérebro.

O sistema GABA é considerado o sistema de inibição do cérebro enquanto o sistema glutamato é considerado o sistema excitatório. Ambos trabalham em sintonia. O sistema GABA prevalece nos momentos de relaxamento, despreocupação e sono e o sistema glutamato prevalece nos momentos que requerem atenção e vigília.

A atividade do sistema canabinóide parece inibir tanto o sistema GABA quanto o sistema glutamato. Em momentos de maior atividade (trabalho, estudo, jogos, etc) inibem o sistema GABA e em momentos de menor atividade inibem o sistema glutamato.

Os sistemas GABA e glutamato estão espalhados difusamente por todo o cérebro. Já o sistema canabinóide se concentra mais no córtex frontal, núcleos da base, cerebelo e sistema límbico.

Os núcleos da base e cerebelo são responsáveis pela coordenação da motricidade e do equilíbrio e o sistema canabinóide é o “maestro” da sinfonia inibitória / excitatória nestas regiões. Havendo um desequilíbrio deste sistema, há prejuízo da função motor a e do equilíbrio.

O hipocampo, responsável pelo armazenamento da memória, faz parte do sistema límbico, que é rico em receptores CBl. A presença de anandamida e THC inibem de forma retrógrada tanto o sistema GABA (inibitório) quanto o sistema glutamato (excitatório) – este com maior intensidade – tornando esta estrutura incapaz de armazenar informações provenientes das diversas situações, devido ao déficit de processamento das informações sensoriais. Experimentalmente, no hipocampo os neurônios ficam atrofiados e com menor número de conexões entre si após meros três meses de exposição dos ratos ao THC.

 

Efeitos farmacológicos

Farmacologia

Apesar das pesquisas com maconha terem começado há cerca de 150 anos, só em 1964 foi isolada uma substância ativa chamada delta-9-tetrahidrocanabinóide (∆9-THC) e apenas em 1970 chegou-se à conclusão de que este é o principal componente psicoativo da maconha, sendo alguns outros canabinóides também ativos – menos potentes – e até mesmo agonistas do THC

(site http://qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/maconha/thc.html)

 

A distribuição do THC, que é solúvel em gorduras, é rápida e completa. Os efeitos farmacológicos ocorrem cerca de 10 a 15 minutos após o uso do cigarro, permanecendo por cerca de 3 a 4 horas, se outra dose não for administrada. A substancia pode ser detectada no corpo até 12 horas após o uso de um único cigarro. A absorção oral é lenta e incompleta e os efeitos surgem em % a 1 hora, podendo persistir por até 5 horas.

Sabe-se que o efeito da Cannabis é três vezes mais potente quando fumado que quando ingerido pela boca, mesmo na forma natural (chá ou resina), embora a absorção gastrointestinal seja satisfatória.

Um cigarro médio de maconha tem cerca de 0,5 a 1 grama da planta. Se considerarmos como 5% o percentual de THC, teremos aproximadamente 50 mg de THC por cigarro. Em geral, cerca de 1,4 a 1,2 do THC presente no cigarro é disponível na fumaça. Então, em um cigarro com 50 mg de THC, cerca de 12 a 25 mg são disponíveis na fumaça. Na prática, a quantidade de THC na corrente sangüínea após o uso de 1 cigarro de maconha está entre 0,4 a 10 mg.

Uma vez absorvido, o THC é distribuído aos vários órgãos do corpo, principalmente aqueles ricos em gordura. Portanto, penetra rapidamente no cérebro – rico em gorduras – sem ser bloqueado pela barreira hemato-encefálica. O THC também atravessa a barreira placentária e alcança o feto rapidamente. É quase completamente metabolizado no fígado a um metabólito ativo (1l-hidroxi-delta-9-TEIC) que é subseqüentemente convertido em metabólitos inativos e então excretado_ pela urina e fezes. O metabolismo do THC é bastante lento: uma meia vida de 30 horas é aceita pela maior parte dos pesquisadores, mas alguns reportam uma meia vida de 4 dias. Portanto, o THC pode permanecer no corpo por vários dias ou semanas e o uso subseqüente de novas doses de maconha podem ser intensificados ou prolongados.

Pelo fato de apenas mínimas quantidades de THC serem encontradas na urino de usuários, os testes isolam principalmente seus metabólitos. Em usuários agu dos ou ocasionais os metabólitos podem ser identificados por 1 a 3 dias na urina. Já em usuários crônicos (mesmo 2 ou 3 vezes por semana) os testes permanecem constantemente positivos. Um usuário pesado que para de fumar pode ter testes de urina positivos por cerca de 30 dias. Portanto, um único exame positivo não esclarece se o usuário é agudo ou crônico. Múltiplas amostras podem ser necessárias para diferenciar os resultados.

A maconha pode se tornar extremamente tóxica quando está intoxicada com paraquat, um herbicida químico muito venenoso usado para matar plantas indesejáveis. Ele afeta os pulmões e outros órgãos. O pior problema é que muitas vezes este herbicida é dificilmente identificado na maconha (WEIL e ROSEN, 1993).

 

Efeitos farmacológicos em animais

O THC e outros canabinóides produzem efeitos comportamentais semelhantes numa grande variedade de espécies animais. Em baixas doses produzem um misto de efeitos depressivos e excitatórios e em altas doses, predominantemente efeitos depressores do sistema nervoso central (SNC). THC e anandamida são sedativos e analgésicos (tanto na medula quanto no cérebro), deprimem a atividade motora, deprimem a temperatura corporal, acalmam comportamentos agressivos, potencializam efeitos de barbituratos e outros sedativos, bloqueiam convulsões e diminuem reflexos.

Em primatas, diminui a habilidade para tarefas complexas, parecem induzir alucinações e distorções do tempo. Também aumentam as interações sociais. Altas doses também parecem diminuir a concentração de hormônios sexuais femininos, diminuir a ovulação e também a espermatogênese.

 

Efeitos farmacológicos no homem

 

Para uma droga tão bem estudada como a maconha, ainda existem muitas controvérsias sobre os seus efeitos agudos e crônicos no homem, talvez pela falta de trabalhos que estudem o uso da maconha na “vida real”. Veremos a seguir o que a literatura atual, baseada nas novas descobertas da psiconeuroendocrinoimunologia, tem a nos dizer:

Efeitos neuropsicológicos

Quatro pesquisadores da Universidade de Washington publicaram um estudo na respeitada revista Journal of Neuroscience mostrando o que ninguém queria acreditar: maconha mata neurônios. O uso crônico da maconha pode levar a déficits cognitivos e perda de tecido cerebral como demonstram inequivocamente os estudos de Daniel Amen.

Imagens (SPECT) 3D de um cérebro normal

Imagens de cérebros de usuários de maconha

 

Sistema cardiovascular

Conforme descrito por Huestis e cols. (1992), o aumento da freqüência cardíaca e da pressão arterial são efeitos comumente observados após o fumo da maconha e são proporcionais à dose. Estes efeitos se devem à ação vagolítica da planta. As veias da córnea se dilatam, provocando a hiperemia observada logo após o uso da substância.

 

Sistema pulmonar

Em um estudo clássico, Hoffman e cols. (1975) fizeram uma análise dos componentes do tabaco e da maconha e notaram que, com exceção da nicotina no tabaco e do THC na maconha, os outros inalantes eram muito semelhantes.

Tashkin e cols. (1995) encontraram evidências de irritação e inflamação brônquica em usuário de maconha, mas não puderam demonstrar um declínio da função pulmonar a longo prazo, como nos estudo com tabaco.

Também ainda não se pode associar o uso da maconha com o desenvolvimento do câncer de pulmão, mas os cientistas também não podem afirmar que o uso crônico da maconha seja seguro para o tecido pulmonar. Ressalta-se ainda a presença do benzopireno, carcinogênico altamente poderoso, e o benzotraceno, encontrado em uma proporção 50% superior na maconha com relação ao cigarro comum.

 

Sistema imune

Fora do SNC, existem receptores canabinóides específicos no sistema imune.

O uso prolongado da maconha é associado com vários graus de imunossupressão, que pode desencadear infecções e outras doenças. As evidências a este respeito ainda são inconclusivas, mas deve-se ressaltar que outras drogas depressivas como álcool, harbitúricos, benzodiazepínicos e anticonvulsivantes compartilham esta ação imunossupressora.

O baço e os linfócitos, por sua importância no sistema imune, foram estudados quanto a sua relação com os canabinóides. Kaminski e cols. (1992) identificaram os mesmos receptores de canabinóides em células do baço e Diaz, Specter e Coffey (1993) identificaram os mesmos receptores nos linfócitos. Quando ativados pelo THC estes receptores inibem a resposta imune destas células. Cabral e cols. (1995) reportaram que tanto o THC quanto a anandamida inibem a função de células matadoras de tumores.

 

Sistema reprodutor

As evidências sobre os danos ao sistema reprodutor e hormônios sexuais estão cada vez mais fortes, em usuários crônicos de maconha. Já se sabe que diminuem os níveis de testosterona e a espermogênese em homens.

Em mulheres, os níveis de LH (hormônio luteinizante) e FSH (hormônio folículo estimulante) estão diminuídos e podem ocorrer ciclos anovulatórios e irregulares. Todos estes efeitos são reversíveis com a interrupção do uso da droga.

 

Gestação

Já se sabe que a maconha atravessa a barreira placentária livremente. Fried

(1995) pesquisou o efeito do uso de maconha na prole de usuárias e não encontrou dados significativos em crianças de 1 a 3 anos, mas com 4 anos houve aumento dos problemas de comportamento, diminuição da performance visual e cognitiva. A posição pré-natal altera funções de execução e, portanto afeta o lobo pré-frontal da criança em formação.

Estudos recentes relacionam o uso de maconha por mulheres grávidas ao desenvolvimento de leucemia linfoblástica na criança. O THC parece produzir aborto espontâneo, baixo peso ao nascer e deformidades físicas quando dado em períodos específicos da gestação (ZIMMER e MORGAN, 1997).

Alguns estudos revelaram que filhos de mães que fumavam maconha durante a gestação eram menores, ou tinham menor peso (ZIMMER e MORGAN, 1997).

 

Efeitos da intoxicação

Aguda

Os efeitos da intoxicação aguda pela Cannabis aparecem após alguns minuto do uso do cigarro e dependem de alguns fatores como a qualidade e quantidade de substância usada bem como do humor, personalidade e experiências prévias com a substância. Estudos demonstram que diferentes efeitos ocorrem em usuários ” novos “e “veteranos”. Parece que com a repetição o usuário aprende a antecipar, reconhecer e aproveitar mais os efeitos, enquanto um usuário “novo” pode se sentir confuso e tonto. O ambiente e as companhias também influenciam a experiência.

 

Efeitos psíquicos

. Euforia e/ou bem estar geral

. Risos sem motivo

. Aumento da sociabilidade e comunicação verbal

. Aumento da percepção de cores, sons, texturas, paladar

. Aumento da energia mental e criatividade

. Mudanças de consciência

. Distorção do tempo e espaço

. Aumento do apetite (“larica”)

. Prejuízo da concentração e memória

. Paranóia – geralmente ligada ao fato de saber que está infringindo a lei .Ansiedade e confusão

. Letargia e sonolência

 

Físicos

. Hiperemia das conjuntivas

. Taquicardia

. Boca seca

. Retardo e falta de coordenação motora

. Broncodilatação

. Tosse

 

Efeitos Crônicos

O uso crônico da maconha pode levar a danos neuropsicológicos, infertilidade, impotência, problemas respiratórios, deficiência imunológica, agravar problemas

cardíacos e também pode ser a droga precursora para o uso de drogas cada vez, mais fortes.

 

Efeitos no campo bioelétrico

Pacientes Não Usuários:

 

 

 

Pacientes usuários:

 

Pacientes Não Usuários:

 

 

Pacientes usuários:

 

 

Mecanismo de dependência

A busca constante por estímulos prazerosos, como alimentos saborosos, uma cerveja geladinha e a relação sexual excitante, está associada a um “sistema cerebral de recompensa”, assim denominado pelo neurobiólogo americano James Olds nos anos 60. Trata-se de uma complexa rede de neurônios que é ativada quando fazemos atividades que causam prazer. Este sistema nos fornece uma recompensa sempre que fazemos determinadas atividades, levando-nos, portanto, a repetir aqueles atos. Biologicamente, ele tem uma função específica e essencial: garantir n sobrevivência do indivíduo e da espécie, ao dar motivação para comportamentos como comer, beber e reproduzir-se.

Infelizmente, não somente as funções fisiológicas normais estimulam este sistema – relacionado à liberação de dopamina, mas também o fazem o álcool e outras drogas de abuso, e às vezes gerando um prazer muito mais intenso do que as funções naturais (www.adroga.casadia.org/news/sistemaprazer.htm). A dopamina circulante no sistema de recompensa pode ser 10 vezes maior que a encontrado durante prazeres cotidianos, “internos”. Diante de tal estimulação, o sistema reduz sua sensibilidade e a pessoa precisa de cada vez mais drogas para produzir os mesmos efeitos. A droga muda o “ponto zero” do sistema de recompensa de ta I forma que nunca mais, com ou sem droga, o mesmo grau de prazer ou recompensa será atingido.

 

Síndrome de abstinência

A síndrome de abstinência do cannabis não está incluída no DSM-IV pois “os sintomas da abstinência do cannabis… foram descritos… mas suas significâncias clínicas são incertas”. Uma revisão realizada em 2002 por Smith concluiu que os estudos não apresentavam forte evidência para a existência da síndrome de abstinência do Cannabis. Esta revisão precedeu a descoberta cientifica dos receptores canabinóides, fato que permitiu estudos mais consistentes e bem controlados. Por tanto, em revisões mais recentes não há mais dúvidas sobre a existência da síndrome de abstinência da maconha.

Sendo o tetrahidrocanabinol (THC) altamente lipofílico (solúvel em gorduras), demora muitos dias para ser eliminado e apenas 20, 25 e, às vezes, 30 dias após último uso é que ocorrem os sintomas de abstinência, incluindo irritabilidade inquietação, angústia, tremores, alterações de sono e de apetite, agressividade além da busca de substância dopaminérgicas como cigarros e/ou café que atuam como o THC, de preferência nos receptores DA2 no núcleo do septo acumbente na área límbica do cérebro (KALINA, 1997). Também por esta propriedade lipofílica, tem sido difícil estudar o THC e os canabinóides relacionados, inclusive fazendo com que alguns pesquisadores sugiram que o efeito se dê através de ação direta n membrana e não mediada por receptor (NESTLER et al., 2001).

Os sintomas são primeiramente emocionais e comportamentais – humor negativo: irritabilidade, ansiedade, depressão; insônia – muito embora a mudança de apetite, perda de peso e desconforto físico sejam freqüentemente citados. O início e curso dos sintomas se mostraram semelhantes àqueles encontrados em síndromes de abstinência provocadas por outras substâncias psicoativas. A magnitude (gravidade destes sintomas foram consistentes e os achados encontrados sugere que a síndrome de abstinência do cannabis tem considerável importância clínica.

O tratamento do ex-usuário de maconha deve incluir o suporte durante a síndrome de abstinência e posteriormente a reabilitação neuropsicoimunendocrinológica deste indivíduo, pois como já foi dito nos itens anteriores, o dano atinge outros órgãos e sistemas além do cérebro.

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