CONFRONTO DE IDÉIAS – Fatos do Passado e do Presente – Deturpações sobre a doutrina daimista

Veja agora o conflito de informação, tomando por base os conceitos apresentados por Paulo Serra e Juarez Xavier, passado à sociedade pelo discípulo do Sebastião Mota de Melo, Alex Polari de Alvarenga, em trechos do livro de sua autoria “O Guia da Floresta”:

“- Estou esperando um povo, um povo que queira… pegar essa Doutrina e levá-la para frente”.

Ele falava assim na certeza de que, quando esse povo chegasse (e nós éramos os primeiros indícios), haveria muito pelo que lutar, para esclarecer os preconceitos que levam a confundir com um mero consumo de drogas o uso ritual e doutrinário de plantas sagradas expansoras da consciência.

– A gente não come e bebe aquilo que gosta? É preciso garantir o direito de usar e beber, dentro da igreja e de nossas casas, aquilo que a gente gosta. E provar que isso nos eleva espiritualmente, não é mesmo? É um sacramento, não é um vício, e vocês, o povo das cidades, é que vão lutar por esses direitos.”

(Extraído do livro “O Guia da Floresta” – cap. I – O mago de Rio Branco pág. 27″ de Alex Polari de Alvarenga.)

 

Veja um trecho em que o autor compara Sebastião Mota a um profeta:

“Um profeta é um pouco diferente de um mestre, que apenas transmite o seu conhecimento e ajuda o discípulo a realizar aquilo que ele já vislumbrou. Não é apenas instrutor de discípulos, mas mestre de um povo, empenhado no cumprimento da palavra de Deus, artífice do plano divino na realidade material, temporal e humana. O mestre pode se dar o luxo de ser uma personalidade totalmente serena e autocontrolada. Por ser guardião da Palavra Divina, o profeta precisa, em alguns momentos, denunciar a rebeldia e a resistência daqueles que são inconscientes ou que não querem ver a Palavra realizada. Nesses momentos, a figura de Sebastião Mota se agigantava ainda mais… Clamava para que acordássemos do nosso torpor e víssemos aquilo que ele estava vendo… Reduzia a pó qualquer ilusão ou falsidade que quiséssemos manter em nosso coração. Era nesses momentos que nós, seus afilhados, reconhecíamos nele a força de São João Batista e a vibração da Justiça Divina daquele grande ser que o próprio”. Cristo disse ter sido Elias.

No final da década de 70 e começo da de 80, um novo fenômeno ocorreu. Viajantes, buscadores, jovens mochileiros na rota de Machu Pichu faziam circular entre os “iniciados” a notícia da existência de uma comunidade perto de Rio Branco que usava uma misteriosa bebida mágica, de origem inca. Foram esses ecos que me levaram até lá e, uma vez chegando, senti-me em casa. O Padrinho nos esperava. Desde a década de 40, os hinos falavam desse povo que viria de longe, até do estrangeiro, se juntar ao povo que começou a ser colhido pelo Mestre Raimundo.

Irineu Serra. O Padrinho nunca se esquecia das palavras do Mestre: “Seu Sebastião, esses daqui ainda não são o nosso povo, são apenas os esteios. O nosso povo ainda vai chegar de longe”.

 

(Extraído do livro “O Guia da Floresta -Introdução, págs.13 e 14 de Alex Polari de Alvarenga.)”.

 

Deturpações sobre a doutrina daimista

A doutrina daimista vem sendo descrita e relatada de forma equivocada nas últimas décadas em trabalhos acadêmicos e também por diferentes veículos da mídia, seguido o jornalista, psicólogo e escritor Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas, estudioso do tema. Em um artigo apresentado na mesa redonda “Velhos e novo usos da Ayahuasca no Brasil: contrastes e perspectivas”, realizada durante o Primeiro Encontro Paulista de Xamanismo, realizado em 2006 em Cotia, São Paulo, o autor aponta essas incorreções e faz comparações com a doutrina originária de Raimundo Irineu Serra. As informações contidas nesse artigo são parte do trabalho do autor nos livros “O Mensageiro – o replantio da doutrina daimista” e A Rainha da floresta – a missão daimista de evangelização”. Para demonstrar o ponto de vista do autor, reproduziremos aqui na íntegra alguns trechos desse artigo.

“As Origens”.

Para quem já leu sobre a doutrina daimista, é conhecido o fato de que Raimundo Irineu Serra, o maranhense que viria a ser o pregador da doutrina daimista a partir de 1931, veio para o Acre por volta dos vinte anos de idade para arriscar a vida como seringueiro. Sabe-se também que na divisa com Peru e Bolívia conheceu a bebida ayahuasca, habitual entre os pajés e curandeiros da região desde tempos imemoriais. E sabe-se que, década e meia após, mestre. Irineu viria a denominar a bebida de “daime”, utilizando-a daí por diante como recurso para a pregação de uma doutrina religiosa.

Quase tudo, porém, o que se escreveu sobre o processo formativo desta doutrina, seu propósito e sua identidade, é falho enquanto informação. Por uma compreensível razão: desde os primeiros estudos acadêmicos, a amostra adotada como referência do que seria a doutrina daimista não representou esta doutrina tal qual ela foi revelada a mestre Irineu e pregada depois por ele, por ser composta de material de campo colhido no Cefluris – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, uma dissidência com sistema de crenças e práticas rituais diferentes, senão opostos, ao que, de fato, caracterizou a doutrina daimista tal qual foi revelada e pregada. Desta forma, descreveu-se e se analisou uma dissidência, ao invés de se descrever e analisar a forma original, enviesando a percepção que se pudesse ter sobre a doutrina daimista.

A Base Doutrinária

Mestre Irineu fez sua passagem (faleceu) no ano de 1971, mais precisamente em julho. Até então, a doutrina daimista fora exclusivamente cristã, nunca preconizara a mescla de cultos ou o uso de outras plantas psicoativas juntamente com o daime – fosse jurema, maconha, cogumelos ou quaisquer outras – e sempre fora pregada dentro dos princípios de identidade e propósito expostos em seus hinos e nos ensinamentos orais de seu pregador inicial.

Para a posteridade, mestre Irineu deixou determinado como base doutrinária os hinos de cinco hinários, o seu e de quatro seguidores, Germano Guilherme, João Pereira, Maria Marques Vieira “Damião” e Antonio Gomes da Silva, em fato reconhecido até por seu principal dissidente, Sebastião Mota de Melo, motivo pelo qual todo princípio de crença que destoe dos expostos nos hinos da base doutrinária não pode ser tomado como próprio da doutrina daimista, se por “doutrina daimista” se entende, como estou entendendo aqui, o que foi revelado a mestre Irineu e pregado nos hinários da base doutrinária.

O Viés

Alguns anos após a passagem de mestre Irineu, Sebastião Mota de Melo, até então um de seus seguidores instaurou sua própria forma de serviço religioso, dando início em 1974 a reuniões regulares na Colônia 5.000, o local onde vivia nos arrabaldes da cidade de Rio Branco, e fundando em 1978 o Cefluris. A despeito da homenagem a mestre lrineu, no entanto, a dissidência já se evidenciava: “Centro Eclético”. Pois aos poucos Sebastião Mota foi agregando ao que era doutrina daimista práticas rituais firmemente desaconselhadas por mestre lrineu, segundo inúmeros de seus seguidores iniciais e até mesmo quem residiu em sua própria casa, como seu sobrinho Daniel Acelino Serra e seus filhos adotivos Paulo de Assunção Serra e Percília Matos da Silva.

Entre tais alterações, como a gradativa ênfase em aspectos de “cura” e na realização de “serviços bailados”, a aceitação da incorporação de entes espirituais com abolição de consciência e a adoção de práticas vindas do candomblé, como o “beija-mão” ritual, em 1977 seria introduzida a prática ritualizada do maconhismo, em aberta divergência com as orientações de mestre Irineu, que ensinava que “quem quiser seguir comigo é com daime e não com outra mistura nenhuma, nem de linhas nem de plantas”, segundo depoimento de Percília Matos da Silva que registro no “O Mensageiro”. No tocante à interdição do uso de outras plantas, já não fosse esta declaração de Percília Matos da Silva, a qual além de filha adotiva foi braço-direito de mestre Irineu por quase quarenta anos, cito testemunho narrado por Paulo de Assunção Serra e colhido por mim no ano de 1994 na cidade de Rio Branco: “de 1959 a 1969 eu estive em Belém do Pará, onde fui tentar a vida e casei com a Altina, minha mulher. Lá, eu conheci a maconha e ‘viajei’ um pouco com ela. Aí, ao voltar a Rio Branco, um dia fui visitar papai e levei um pouco para ele, perguntando se era bom eu usar. Ele olhou, pensou um bocadinho e me disse: ‘Olhe, Paulo, pegue isto e enterre lá no pé daquela paxiúba [palmeira típica do Norte brasileiro], pois isto não é da doutrina, não, e não vai ser bom você usar”.

No período de 1977 a 1981, contudo, importantes ocorrências se deram na Colônia 5.000: a absorção de andarilhos vindos de centros urbanos do Sul e Sudeste e a decisão da implantação de um modelo social comunitário – nos moldes do preconizado pelo movimento hippie, dominante na segunda metade dos anos 60, mas prolongado no Brasil até a década dos 70 -, a castração e morte de um homem, a prisão de um rapaz portando daime e maconha nas ruas de Rio Branco e a invasão da Policia Federal para erradicar o plantio na propriedade.

A seguir, naquilo que sempre foi destacado somente como ocorrência de messianismo popular, mas bem provavelmente como alternativa para escapar à crescente pressão social e legal, Sebastião decidiu trasladar a população da comunidade para o interior da floresta amazônica, abrindo o seringal “Rio do Ouro” e, adiante, o vilarejo “Céu do Mapiá”, ambos no Estado do Amazonas.

Neste exato sentido, os antropólogos Alberto Groisman e Clodomir Monteiro da Silva respectivamente registraram que, “no final da década de 70 (…) chegam ao local, vindos de centros urbanos, jovens andarilhos (…) Sua inserção no grupo provoca Uma redefinição dos valores até então praticados e inaugura uma ideologia de comunidade” e, “por falta de condições para aquisição de tratores e outros implementos, visando reciclar a terra cansada, por causa, ainda, do crescimento da comunidade e, principalmente, por se sentirem constantemente perturbados pela presença de elementos da Polícia Federal e de pessoas não identificadas inteiramente com o Projeto, a partir de maio de 1980 o Cefluris iniciou abertura e implantação do seringal ‘Rio do ouro’ “. .

Nessa época o daime ganhou visibilidade nacional pela mídia – embora as práticas daimista já ocorressem em Rio Branco havia meio século -, atraindo a atenção para o que passou a parecer uma “nova religião”, mesmo que os hinos da base doutrinária daimista nunca tivessem afirmado isso e que mestre Irineu o negasse com firmeza: tratava-se da pregação, “à moda local”,da “doutrina de Jesus Cristo Redentor”, em culto devocional a Maria Santíssima e em missão evangelizadora sem nenhuma violação aos princípios dos Evangelhos, não derivando de sincretismo com cultos anteriores ou, então, contemporâneos, nem tampouco surgindo como uma outra forma popular de catolicismo, por reinterpretação de rituais católicos, como já se quis também.

Foi a partir daí que se desenvolveram no Brasil os estudos sobre o que passou a ser chamado de “culto do SANTO DAIME” ou “religião do SANTO DAIME”. Os estudos pioneiros são a pesquisa da historiadora Vera Fróes Fernandes (1982- 1983), a qual resultou no livro “História do povo Juramidam – A cultura do SANTO DAIME”, e a dissertação de Mestrado do antropólogo Clodomir Monteiro da Silva, “O palácio de Juramidam – SANTO DAIME, um ritual de transcendência e despoluição”, datada de 1983.

A eles se seguiram vários outros, e menciono apenas alguns dos nacionais, como a pesquisa da socióloga Geovânia Barros Cunha (O Império do beija-flor, 1986) e as dissertações de Mestrado em Antropologia de Fernando de La Rocque Couto (Santos e xamãs, 1989), de Sandra Lúcia Goulart (As raízes culturais do SANTO DAIME, 1996), de Arneide Bandeira Cemin (Ordem, xamanismo e dádiva – o poder do SANTO DAIME, 1998) e de Beatriz Caiuby Labate (A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos, 2000), além de livros como o do antropólogo Edward MacRae, Guiado pela lua – xamanismo e o uso ritual da ayahuasca no culto do SANTO DAIME (1992), os do escritor Alex Polari de Alverga, O livro das mirações (1984), O guia da floresta (1992) e O evangelho segundo Sebastião Mota (1998), o do antropólogo Alberto Groisman, Eu venho da floresta – um estudo sobre o contexto simbólico do uso do SANTO DAIME (1999), e o organizado pelos antropólogos Beatriz Caiuby Labate e Wladimyr Sena Araújo, O uso ritual da ayahuasca (2004).

Todos estes estudos, todos e muitos mais outros, no entanto; cometeram o mesmo e crucial erro metodológico, falhando naquilo que se espera de um trabalho de referência: segura informação. Pois, tomando por base o que se passou a praticar anos após a passagem de mestre Irineu, e aceitando por fiel testemunho da história e do perfil da doutrina daimista os depoimentos verbais de Sebastião Mota de Melo e de seguidores seus, duas décadas de produção acadêmica registraram princípios de crença e aspectos doutrinários acreditados por estes como se caracterizassem de fato o que fora um dia a doutrina daimista.

Incorporações

Quando mestre Irineu ensinava, segundo inúmeros de seus primeiros e principais seguidores, que pode ocorrer incorporação desde que a consciência seja preservada, para expansão do conhecimento pessoal ou partilha de ensinamento com irmãos, em um dos aspectos mais discretos dos ensinamentos doutrinários daimistas, ele se referia à possibilidade de “convivência”, em uma mesma pessoa, por instantes que fosse ou por períodos mais longos, do espírito que anima a pessoa e de um ente espiritual, em um fenômeno humano universal e nem de longe restrito aos ensinamentos kardecistas.

É suficiente relembrar um dos principais teólogos cristãos, que antecedeu em mais de milênio e meio a obra de Alan Kardec. Lecionou santo Agostinho que, “quando um espírito se une a outro, é possível que comunique a ele o que sabe, graças às imagens que possui, seja levando-o a entendê-las, seja a aceitá-las como quem aprende”.

Como Percília Matos da Silva relatou, segundo depoimento colhido por mim em 1996, “o Mestre sempre dizia: ‘quem quiser seguir e aprender alguma coisa dentro dessa doutrina é com daime, não tem esse negócio de misturar com isso, misturar com aquilo, nem entrar em outras linhas’ (…) E por isso o Mestre não adotava, não sabe? Esse negócio de incorporação, essas coisas ele nunca adotou, porque d,entro da linha do daime, Se o irmão está preparado, toma o daime e vai procurar a sua linha, o seu seguimento. O irmão recebe a mensagem que for preciso, a entidade até vem e lhe diz, o irmão olhando a entidade, então o irmão ouve ou tem por intuição. Mas consciente! A mensagem! Não precisa mandar recado, não sabe? (…) O que ele falava era isso: há mais mentira do que verdade, nessas linhas da incorporação. Onde existe uma verdade, existem cem mentiras “.

Interessa assinalar este ponto, para que não se pense em preconceito contra cultos de matriz africana, como já me apontaram também. Trata-se do fato de que “nem toda religião contemporânea propõe um trabalho interno, ou espera isso de seus seguidores; quer dizer, nem todas as formas de religiosidade esperam desvelar o caminho das moradas internas”, como resume o antropólogo brasileiro José Jorge de Carvalho.

Na dissidência estudada, porém, pela própria história pessoal de Sebastião Mota de Melo – que incorporava, quando jovem – e, depois, pela mescla com cultos de matriz africana, adotou-se o incentivo a incorporações, inclusive com abolição da consciência, resultando uma importante modificação dos rituais da doutrina daimista, interpretada depois, pelos estudiosos e pela mídia, como representando a doutrina daimista original.

Serviços de cura e bailados

Outro pormenor diz respeito aos “serviços de cura”. Se recuarmos ao início da doutrina daimista, nos idos dos anos trinta do século XX, veremos que a primeira iniciativa de mestre Irineu foi implantar as sessões de “concentração” aos sábados, nas quais os fiéis tomavam daime e se sentavam em silêncio, como até hoje, imersos em meditação. Meditação sobre si, seu entorno familiar ou social, a espiritualidade e o propósito da vida, enfim. Algo após passaram a existir “serviços de cura”, se solicitados por homens ou mulheres que sofriam de algum grau de distúrbio orgânico ou emocional e criam ali obter resolução para seus problemas ou, ao menos, conforto.

Tais “serviços de cura”, quando ocorriam, até a passagem de mestre Irineu eram realizados em silêncio contrito (e nunca cantados, como Sebastião Mota de Melo estabeleceu depois), com a “banca de cura” rogando pelo “doente”, por caridade, buscando fazer de sua ardente oração apelo para que o Espírito Santo de Deus “curasse” quem fosse merecedor.

Muitos anos mais tarde é que mestre Irineu instituiu como prática ritual os “serviços bailados de hinário”, ou festejos, inclusive acolhendo a iniciativa de irmãos, por nada de mal identificar em celebrações de louvor realizadas em dias por convenção consagrados a santos e, em verdade, vislumbrando benefícios para todos, ocasiões nas quais os hinos já recebidos por ele e irmãos ou irmãs pudessem ser cantados festivamente: São João, na casa de Maria “Damião”, em meados dos anos trinta (o primeiro serviço bailado registrado na história da doutrina daimista), São José, bem mais de uma década à frente, por sugestão pessoal’ de Francisco Granjeiro, e outros.

 

Livros na Internet

Os livros “O Mensageiro – o replantio da doutrina daimista” e “A Rainha da floresta – a missão daimista de evangelização”, de autoria de Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas, que contêm uma análise mais profunda sobre a doutrina daimista, podem ser encontrados na íntegra no site: www.juramidam.jor.br .

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