HISTÓRIA VIVA DO SANTO DAIME – Contemporâneos do Mestre Irineu – entrevista Juarez Martins Xavier

HISTÓRIA VIVA DO SANTO DAIME

Contemporâneos do Mestre Irineu

Entrevista – Março 2007

Juarez Martins Xavier

Discípulo do mestre Daniel Pereira de Matos e seguidor do mestre lrineu Serra

Data de nascimento: 17/12/1924

 

Juarez Xavier:

Conheci o mestre Irineu e convivi com ele pouco tempo porque pertencia a uma seita de linhagem já do mestre Irineu, que era do mestre Daniel Pereira de Matos. Então eu tomei daime com o mestre lrineu umas duas ou três vezes. Então conheci ele era um gigante, um homem muito educado, recebia as pessoas com muita educação e palavra firme. Eu tomei dai me pelas mãos dele. Eu sou da mesma linhagem do mestre Irineu, porque Daniel de Matos recebeu essa missão através de mestre lrineu Serra e pôs em prática. E eu sou discípulo de Daniel e de mestre Irineu, recebi tudo espiritual através de mestre Daniel, mas trazido por mestre lrineu.

 

Primeiro daime com o mestre

 

Juarez Xavier:

A primeira vez que eu fui tomar daime com o mestre Irineu eu saí da minha casa e fui lá tomar o daime que ficava em uma frasqueira grande e era distribuído para todo aquele povo. E deixava o resto na frasqueira e ele tinha um copo grande e ia tomando, porque ele era um homem agigantado. Ele sentava lá no cantinho dele e fumava um charuto baiano, dirigindo os trabalhos com os adeptos.

 

Gideon dos Lakotas:

Mas era charuto mesmo, tabaco? Estou insistindo nisso por que existe uma versão que o mestre pitava maconha.

Juarez Xavier: Em absoluto. Eu afirmo e confirmo que aqui não. O mestre só formava o charuto dele. Esse negócio de droga e santa maria, maconha, veio ultimamente quando surgiu o interesse monetário. O daime é limpo, não tem essas coisas, quem usa ele desse jeito está em uma linha completamente diferente. Eu digo e afirmo porque há 43 anos tomo dai me e meu daime é puro e aquele que mistura não está certo, pode ficar na certeza disso e o velho (mestre Irineu) não usava isso e Daniel também não usava isso. O daime que eu comecei a trabalhar e ‘uso é completamente diferente dessas arrumações de tóxicos. Meu daime é feito de água, cipó, folha, fogo e orações de penitências. Aquele que usar drogas, que eu conhecer que usa drogas no meu centro tem dois caminhos: por água e por terra. O irmão pra me seguir não toma bebida alcoólica, é preciso que não fume, não tenha vícios. Então essas arrumações de santa maria é uma coisa horrível, eu não uso isso e não admito que meus adeptos usem. Primeiro de tudo é uma coisa que é proibida pela lei do homem. E não vou infiltrar droga em uma bebida tão sublime como o daime. Considero como um crime.

 

Alto Santo (centro do mestre Irineu) e a cobrança dos trabalhos

 

Juarez Xavier:

O mestre Irineu não cobrava os trabalhos porque ele dizia o que digo hoje: “A mãe das florestas nos dá de graça e de graça eu dou também”. O lugar onde se toma daime com dinheiro na frente não está certo.

 

Gideon dos Lakotas:

Depois do falecimento do mestre lrineu é que houve esse desvirtuamento do daime com as drogas, o que o senhor gostaria de falar sobre isso?

Juarez Xavier: Sobre essa parte de drogas estão errados. Porque a minha iniciação com os mestres Daniel de Matos e lrineu Serra não tinha nada disso. Agora depois é que se arraigou tudo isso. O daime é limpo, o daime é vida e não tem essas coisas no meio… E tudo aquilo que é proscrito pela lei do homem o daime condena. Porque nele está a luz de Deus, porque tenho conhecimento disso e não sou fanático. O daime é uma força divina, é uma erva benigna, folha e cipó. Não é como a droga que só leva o sujeito para a profanação, para o desequilíbrio moral, para a doença. O daime é diferente, eleva o mundo, ajusta o homem, ensina o homem a amar a Deus, ao próximo, ensina até o sujeito a se alimentar. Esse uso que estão fazendo do daime é um crime. Eu sou um soldado com bandeira em punho em defesa dessa bebida, porque com ela vi coisas que nesse mundo homem nenhum mostra. Essas palavras que estou dizendo é de um velho caminheiro que toma daime há 43 anos. Eu comecei a tomar daime com 33 anos e ele me trouxe do desajuste para o ajuste, me ensinou a amar a família, a amar meu próximo, me ensinou a respeitar as autoridades constituídas, me educou. E aquele que toma daime dentro dessa direção receberá as mesmas bênçãos. É pra tomar daime e respeitar, não podemos misturar sujeiras, não. Espero que isso seja esclarecido para o mundo.

 

Gideon dos Lakotas:

O senhor conheceu o Sebastião Mota de Melo?

 

Juarez Xavier:

Conheci e tomei daime na seita dele por um convite que eles fizeram para mim no aniversário dele. O Sebastião Mota desviou-se um pouco por causa da parte material, ele se engrandeceu muito e vacilou, fez besteira, aconteceram coisas dentro do centro dele e com o povo dele que não eram para acontecer. E eu o avisei antes, o que poderia acontecer com aquela situação, misturando bebidas alcoólicas. Pedi que ele me desculpasse que eu não tinha nada a ver com a vida dele, mas que ele estava em um caminho errado. Eu falei isso para um membro do centro dele. Depois aconteceu um incidente lá.

 

Gideon dos Lakotas:

O senhor está falando do incidente em que castraram o Ceará (um conhecido pai-de-santo de Rio Branco adepto do daime no centro de Sebastião de Mota Meio que morreu nessa ocasião)?

 

Juarez Xavier:

Exatamente. E isso aconteceu pela falta de disciplina, porque um homem que toma daime tem que ter cuidado com o que ele está fazendo. O Sebastião era um homem de muita luz, mas foi corrompido, corrompido pelo dinheiro, caiu na fraqueza.

 

Gideon dos Lakotas:

Lá no sul e aqui também prega muito que o Sebastião é o sucessor do mestre Irineu.

 

Juarez Xavier:

Isso é uma profanação, uma heresia. (…) Ele não tinha nada com sucessor, senão não teria feito aquilo, não teria caído. Não quero profanar nosso irmão, que Deus o tenha. Ele caiu e todos nós estamos sujeitos a isso. Porque a exterioridade está sempre junto da gente. (…) Precisamos estar sempre atentos porque sempre vem a fantasia para querer corromper. Deixamos que luz venha a nós. Ela é que nos traz a beleza, a verdade, o amor, os ensinamentos, a justiça, a saúde.

 

Centro do padrinho Juarez e o dinheiro



Juarez Xavier:

O centro a que eu pertenço é uma associação filantrópica e trabalhamos em caridade, não cobramos nada de ninguém. Aquilo que nos dão de livre e espontânea vontade, são doações, vivemos disso. Não quero muito, quero pouco, não para a matéria, para o espírito. O dinheiro nos corrompe, mas nós precisamos de dinheiro, não resta dúvida, porque vivemos em vida de matéria e nós temos que lutar com ele para nossa sobrevivência. Para a espiritualidade ele é bom até certo ponto, quando se sabe lutar com ele, da outra parte ele corrompe, nos estrago. Jesus disse: Dai, a César o que é de César e daí a Deus o que é de Deus. Nós precisamos de dinheiro, mas não vamos nos agarrar a ele. Vamos fazer nosso castelo de rocha não de areia, porque de areia o vento vem e leva e a rocha é para sempre. E o nosso caminho é esse, trabalhar e fazer a caridade. (…) Eu tive em um trabalho do mestre Irineu e vi ele fazer uma conta entre os irmãos para comprar uma bacia para confeccionar daime, agora cobrar daime de quem quer que seja eu jamais vi nem ele, nem na casa de quem fui adepto.

 

Mensagem

 

Juarez Xavier:

Mediante o esclarecimento que o senhor está dando, que será ventilado para o mundo inteiro, da luz criada na pureza, eu tenho a grata satisfação de apresentar essa mensagem. Muito antes de conhecer essa luz, que me ensinou, que me educou, eu era um desajustado, eu bebia, não conhecia família, desrespeitava as autoridades constituídas, tudo isso eu fazia, depois com a idade de Jesus Cristo, aos 33 anos, ela abriu-se pra mim corno se fosse o dia, a verdade, mostrou o que era o fumo, a bebida, meus erros do passado, sem eu dizer nada para o mestre, só eu e a luz clareando e mostrando a luz da verdade, me educou e trouxe o ajuste. Não sou culto, mas tenho educação que essa luz me deu. Ela só dá o que é bom. A droga trás o desajuste vicia, ela é má, torna dependente, e isso a luz não faz. Haja vista que eu tomo daime cada 15 dias ou toda semana e só tomo por carência quando vou executar o trabalho. E isso eu não vejo na humanidade, viciada, corrompida, com a morte pela frente e essa bebida não traz isso. Eu tenho 83 anos e estou lúcido ainda! Eu não trabalho para a carne, trabalho para o espírito. (…) Seu livro vai ajudar muitas pessoas, vai esclarecer muita gente.

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