HISTÓRIA VIVA DO SANTO DAIME – Contemporâneos do Mestre Irineu – entrevista Paulo de Assunção Serra

HISTÓRIA VIVA DO SANTO DAIME

Contemporâneos do Mestre Irineu

Entrevista – Março de 2007

Paulo de Assunção Serra

Filho adotivo do mestre Irineu Serra

Data de nascimento: 01/12/1939

 

 

Gideon dos Lakotas

: O Sebastião Mota de Meio usava drogas antes do daime?

 

Paulo Serra

: Eu não sei desses detalhes, mas pessoas me disseram que ele usava, mas depois parou quando entrou no daime. Mas quando ele se meteu com o Ceará aí o Ceará botava bebida e depois botou a santa maria no meio (maconha) e depois o pessoal ficava viciado. E hoje eu estive depois disso no Centro de Mapiá e a dona Rita (viúva do Sebastião) disse que o Sebastião pediu ao Alfredo (filho do Sebastião) que não usasse mais isso, que continuasse só com o daime, mas ele estava viciado de uma tal maneira que não teve mais jeito de acabar com aquilo. Mas quando conheci o Alfredo ele era um menino bom, fora dessa história é uma pessoa que você conversa com ele e é uma boa pessoa, mas o erro é ele ter adotado essa história, da maconha. Foi o Sebastião que deixou isso, mas ele não queria mais, pediu para o Alfredo continuar a doutrina sem aquilo, nas palavras da dona Rita.

 

Conhecendo o trabalho no Céu do Mapiá

 

Paulo Serra:

Em 1993 eu fui ao Mapiá. Pedi para o Alfredo que eu queria ver um trabalho lá com a santa maria. E ele disse que não tinha mais isso, mas tinha. E aí ele escolheu o pessoal firme para agüentar o trabalho. E primeiro foi feito o trabalho de concentração com o daime e depois ele falou que ia mudar para o trabalho com a santa maria para eu ver. E eu disse que queria ver com o dai me, mas sem participa. E aí começaram a usar aquele cigarro e tive que pegar o lenço porque não agüentei o cheiro, senão ia participar do mesmo jeito. E quando terminaram tudo foram cantar e eu vendo tudo aquilo como um vento que dá aquele redemoinho em uma rua de folhas, que leva as folhas até uma certa altura e depois falta o vento e as folhas caem no chão. Aí em uma certa altura eu escutei uma pessoa, depois de uns 40 minutos daquela confusão, a dizer assim: o que é que tu quer? Isso aqui é coisa daqui, quer passar para cima, passa para tu ver. E aí quando passei a um determinado ponto só aquele nojeira, aquela seboseira, aquela caatinga. E então agradeceram os trabalhos, eu agradeci a gentileza do Alfredo, ele disse que aquilo era coisa dali de dentro, mas o que não presta é da conta de todo mundo. Mas pelo menos eu conheço isso hoje, não vou pela cabeça de ninguém. E o Juarez também conhece essas coisas mais do que eu. Um dia ele estava no centro dele e chegaram dois camaradas para os trabalhos. E ele disse para aqueles camaradas:

voltem, peguem aquela porqueira que você deixaram lá no pé daquele pau e voltem. E os camaradas saíram, um entrou no mato e pegou a sacolinha.

 

Sebastião e mestre lrineu

Paulo Serra: Quando cheguei em 1969 em Belém o Sebastião Mota estava aprendendo a fazer o daime com o papai (mestre Irineu). Ele mandou o Francisco Granjeiro, que era o feitor do daime, ensinar o Sebastião a conhecer as folhas, a fazer o daime. Tudo isso ele aprendeu lá no Alto Santo com mestre Irineu e o pessoal dele. Na época, o Alfredo era um rapazinho novo. Tínhamos uma amizade bacana, mas depois que papai morreu ele achou que deveria implantar uma bandeira no Alto Santo. Então juntaram-se o Sebastião Jacolte e outros membros para fazer uma reunião para perguntar a ele sobre essa bandeira. Na reunião ele disse que queria implantar uma bandeira lá dentro e o Sr. Leôncio (um dos coordenadores do Alto Santo) perguntou que bandeira era essa. E” o Sebastião disse que ia explicar depois de implantar a bandeira. Mas ninguém queria implantar uma bandeira sem saber que “cor” era essa bandeira. E o padrinho disse pra mim que o mestre Irineu antes de morrer disse a ele: “Leôncio não deixe ninguém inventar moda aqui dentro, não deixe ninguém botar um pingo no “i”, uma vírgula, porque está tudo como é pra ser. O dia que você tiver uma dúvida reúna 10 pessoas, tomem daime, pensem em mim, me chamem que eu venho dizer, e o que você ver todos eles vão ver”. O Leôncio disse isso pra ele (para o Sebastião Mota) e ele se aborreceu e foi embora. E foi pra casa dele, onde ele continuou e fundou o Cefluris.

 

Gideon dos Lakotas:

Cefluris significa Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo lrineu Serra, então o Sebastião está usando o nome do mestre em um trabalho em que se usam drogas. Como o senhor vê isso?

 

Paulo Serra:

Justamente era isso que eu queria que através de uma história dessa a gente pudesse desvincular esse nome, tirar o nome dele. O Sebastião vendeu o daime e ainda usa o nome do mestre Irineu. Isso tem que ser desvinculado, porque cada um manda na sua própria casa. Fico muito magoado por as pessoas usarem o SANTO DAIME e usarem coisas que não deveriam ser usadas dentro do SANTO DAIME.

 

Mestre lrineu e a cobrança de trabalhos

 

 

Gideon dos Lakotas

: O mestre lrineu não se sustentava com o dinheiro do daime?

 

Paulo Serra:

Não, o mestre Irineu se sustentava com a agricultura, trabalhava na roça. E nas horas de folga fazia os trabalhos. Ele era assim: se juntassem 30 homens para dar um dia de serviço pra ele, no roçado, quando terminavam, já era 5 horas, todo mundo tomava o café pra ir embora, e ele chamava “fulano chega aqui”, e daqueles 30 homens ele tirava uns 5, 6 e na época em que se pagava 5 cruzeiros para uma diária de trabalho ele dava 10. E os homens falavam “não, compadre, eu vim lhe dar um dia de serviço”. E ele respondia que eles não podiam dar um dia de serviço, que se chegassem em casa ia faltar o café, o açúcar. “O dia que você puder me dar um dia de serviço eu vou saber”. Então ele era assim.

 

História do “dedinho”

 

Paulo Serra:

Essa história foi quando eu fui lá na casa do Alfredo, depois daquele dia que eu pedi para ver o trabalho com a santa maria. E o Alfredo perguntou onde eu mandava. E eu disse que eu não mandava nada, que eu pedia. Sou pequeno, uma coisa que não me acanhei é de pedir. E ele disse que se eu quisesse mandar tinha três igrejas para eu mandar: no Rio, em Belo Horizonte e uma igreja em Porto Alegre, para eu escolher. “Você só leva a transferência dos filhos e a roupa, chegando lá tem carro; casa, escola, motorista, tudo para você”. E eu disse que não podia dar aquela resposta àquela hora que precisava conversar em casa com minha esposa. E aí falei com a mulher e ela ficou toda animada. E aí numa quarta-feira tomei ¾ de daime e fiquei ali em casa. Mas depois vi que não estava bom ali, tomei mais meio copo de daime e falei para minha mulher que ia lá no túmulo do mestre lrineu (no Alto Santo) e falei que se eu demorasse mais de uma hora e meia era para pedir a alguém para me chamar. Cheguei lá, deitei bem do lado do túmulo de papai e fiquei rezando. Fiquei ali um pouco e depois me sentei bem de frente ao túmulo, pensando na história do Alfredo, fui levantando a vista e só vi um dedinho do mestre Irineu fazendo sinal de “não”. Então não era para eu ir. Porque ele dizia “se te acompanham os bons tu será um deles, se te acompanham os ruins tu serás igual ou pior do que eles”. Não vou dizer que eles são ruins, mas tem a história que não me agrada.

 

Gideon dos Lakotas:

Lá no sul e aqui também pregam muito que o Sebastião é o sucessor do mestre Irineu.

 

Paulo Serra:

Não. Não. Ele unicamente deixou o presidente, Sr. Leôncio Gomes da Silva. O dia que seu Leôncio faltasse ficaria uma pessoa para assinar os documentos, mas que não se considerasse presidente. Não tem sucessor, tem a pessoa para administrar o trabalho, mas não sucessor. Se o Sebastião disse para alguém essa palavra (que seria o sucessor do mestre Irineu), ele desculpe-me dizer isso, mas se ele disse essa palavra considero uma mentira.

 

Mensagem

 

Paulo Serra:

Eu gostaria de dizer o que o mestre Irineu sempre me dizia: a lei dos homens nós vamos sempre respeitar. É proibido andar pela esquerda, então vou andar pela direita. É proibido beber cachaça? Então não vamos beber. É proibido usar drogas? Então não vamos usar. É para limpar o SANTO DAIME. Misturar o SANTO DAIME com outras coisas não é coisa que preste. Porque você pega meio copo de óleo e copo de água mistura bem misturadinho e fica bonito, mas dali meia hora já está separado. Peço a todos que tomam daime que tomem daime e não usem outras coisas. O daime eu tomo na frente do governador, do secretário de Justiça, de qualquer um, já a maconha não tenho coragem de fazer, nem faço. Deus não vai deixar eu fazer isso. O daime traz à luz e a maconha traz tristeza.

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