Renasce no coração da Ásia

Os regimes comunistas da China e da União Soviética perseguiram implacavelmente os devotos de todas as religiões e.
Por Texto e fotos: Haroldo Castro

Quando a República Popular da China foi criada, em 1949, o Partido Comunista decretou que as religiões eram símbolos do feudalismo e do colonialismo. O governo baniu as práticas, acuou fiéis e fechou prédios religiosos. Mosteiros e pagodes – e também igrejas e mesquitas – foram transformados em museus, quando não destruídos. O auge da perseguição religiosa aconteceu durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, entre 1966 e 1976. O Tibete, anexado em 1951, também foi – e continua a ser – vítima da onda do fanatismo anti-religioso.

Uma procissão levando 108 sutras, textos sagrados tibetanos, caminha ao redor do mosteiro Erdene Zuu, na Mongólia.

Com a abertura econômica na década de 1980, os templos budistas e taoístas na China começaram a receber um maior número de fiéis. A política interna do Partido Comunista chinês manteve a incompatibilidade entre a religião e a associação ao partido, mas a alma supersticiosa do chinês preferiu estar de bem com alguma divindade. Hoje, o censo governamental reconhece que existem mais de 120 milhões de budistas – cerca de 10% da população. No entanto, outras fontes sugerem que a fatia de adeptos do budismo poderia chegar a 80% do total nacional.

O processo de destruição dos valores religiosos na União Soviética teve início algumas décadas antes do que o da China. A “Grande Limpeza” implantada por Stálin nos anos 1930 destruiu os valores espirituais da população. Na Rússia, mais de 50 mil igrejas ortodoxas foram fechadas e cerca de 100 mil fiéis foram executados entre 1937 e 1939.

A Mongólia, no coração da Ásia Central, também sofreu as conseqüências da fúria stalinista. Lá, a “Grande Limpeza” chegou para eliminar os adversários do regime fiel à União Soviética e também para suprimir o poder do budismo e dos lamas. Mesmo sob o regime comunista desde 1924 – ano em que a Mongólia passou a fazer parte do bloco soviético -, a importância dos mosteiros budistas no país superava o poder do governo. O povo preferia seguir conselhos de um lama a adotar as determinações da administração comunista.

Sentindo-se ameaçado, o Partido Comunista aproveitou a proximidade dos sacerdotes budistas com o Japão e acusou a religião de estar alinhada com o inimigo. O expurgo ocorrido na Mongólia entre 1937 e 1939 foi implacável. Calcula-se que, antes da perseguição, havia cerca de 115 mil monges, numa população total de 700 mil habitantes. Em menos de dois anos, todo o sistema foi desmantelado. Os altos sacerdotes foram executados e os que escaparam de uma bala na nuca acabaram na prisão ou na Sibéria. Sobreviveram apenas os meninos com menos de 10 anos, depois devolvidos a seus pais.

Calcula-se que, durante esse período de terror, foram assassinadas 30 mil pessoas, das quais 20 mil teriam sido religiosos. Havia mais de mil mosteiros e templos budistas existentes antes da repressão. Em 1939, apenas três mosteiros haviam sido parcialmente poupados: Erdene Zuu, Amarbayasgalant e Gandan.

Como nenhum mestre sobreviveu, o conhecimento foi suprimido. O alfabeto cirílico russo substituiu a escrita mongol e ninguém mais teve acesso aos textos sagrados. O budismo entrou em um profundo sono forçado por mais de meio século.

É com essa enxurrada de informação que sou recebido no Museu das Vítimas da Repressão Política, em Ulan Bator, capital da Mongólia. Fotos em preto-e-branco mostram dezenas de templos destruídos e textos crus revelam a violência da época. O país é hoje uma democracia, depois de ter passado sete décadas sob o regime soviético.

O RENASCER DA NAÇÃO mongol está ligado à perestroika e a uma sucessão de eventos que causaram a implosão do bloco soviético. O muro de Berlim caiu em novembro de 1989 e, no mês seguinte, os mongóis pediram o fim do sistema de partido único. A primeira eleição livre ocorreu em junho de 1990. Ao longo dessa década, os mongóis, além de arquitetarem as estruturas de um Estado livre baseado na economia de mercado, também empreenderam uma busca por seus novos símbolos e heróis.

Qual seria a identidade cultural da nova Mongólia? Uma das respostas veio do passado remoto: Gêngis Khan, oito séculos atrás, havia saído das estepes para dominar meio mundo. Os mongóis transformaram o conquistador em nobre sábio, erigiram estátuas e publicaram livros com seus conceitos judiciosos. A lacuna espiritual também precisava ser preenchida: o budismo passou de culto proibido a fonte de inspiração para todas as gerações.

Admirado pelo desabrochar da cultura budista, resolvo visitar os três mosteiros que sobreviveram à “Grande Limpeza”. Erdene Zuu, situado em Kharkhorin, antiga capital mongol no centro do país, é o mosteiro mais importante da Mongólia. Antes do expurgo stalinista, mais de 1.500 monges viviam no lugar, que também contava com 65 templos.

Passo o dia perambulando e encontro várias famílias locais que querem participar da cerimônia de cânticos e receber bênçãos dos monges. Mais tarde, um grupo de 20 lamas sai em procissão para dar uma volta ao redor das quatro muralhas do mosteiro. Um número ainda maior de fiéis junta-se aos religiosos. Os mais devotos carregam uma caixa retangular, embrulhada em um tecido sedoso amarelo. São 108 textos tibetanos sagrados.

Ao som de conchas, pratos e mantras, o cortejo sai do mosteiro pela porta do norte e começa a contornar, em sentido horário, a longa muralha branca, adornada de 108 estupas. Um dos monges dá a volta bem rente à muralha, beijando a parede de cada estupa.

O mosteiro Gandan é considerado o principal pólo do budismo do país; fiéis budistas reverenciam um dos 108 sutras, textos sagrados tibetanos, no mosteiro Erdene Zuu, em Kharkhorin, excapital mongol.

A procissão leva 40 minutos para circundar, em passo lento, o quadrilátero de 400 metros de lado. O colorido das vestimentas vermelhas e amarelas contrasta com o branco da muralha, o azul do céu e o verde das estepes.

Antes de sair do mosteiro, converso com Natsagnyam. Ela trabalha no museu de Erdene Zuu e é budista praticante. Aluna de doutorado em cultura budista, explica que eu tivera muita sorte em assistir à procissão. “Estamos no quinto dia do mês lunar, um dia auspicioso que marca o terceiro sermão de Sidarta Gautama, o Buda”, afirma. “Essa volta ao redor do mosteiro somente acontece uma vez por mês.”

Meu próximo destino é Amarbayasgalant. Construído por um imperador da Manchúria em 1737, o conjunto segue uma arquitetura chinesa. O mosteiro está a 360 km ao norte da capital, num contexto rural diferente. Aqui não existem desertos ou estepes, mas vastos campos verdes, dos mais férteis do país. Durante as seis horas de trajeto, cruzo colinas com bosques, vales produtivos e intermináveis monoculturas de cereais. As montanhas são gentis, parecem uma aquarela.

O mosteiro se situa ao pé de um morro. No século 19 abrigava 2 mil monges, mas hoje são apenas 30 – número que cresce lentamente. Também aumenta a quantidade de visitantes locais, pois os mongóis têm interesse em redescobrir a sua própria história. Diariamente, às 8 horas, os noviços cantam textos sagrados.

Entro no templo principal, ornamentado de longas bandeirolas com as cinco cores do budismo e com colunas decoradas por dragões. Sento ao lado de uma família mongol, fecho os olhos e me deixo embalar pelas vozes.

Quando saio do templo, vejo uma jovem rastejando. Ela passa embaixo de uma estupa adornada de longos lenços azuis. Fico intrigado com a cena e indago a razão. “Quem passa por baixo dessa pedra abandona suas vibrações negativas. É uma limpeza da alma”, responde Zula.

“Antes de conhecer Amarbayasgalant, eu não me interessava por espiritualidade. Mas o mosteiro é fascinante e começo a apreciar mais o budismo.” Zula, de 29 anos, tem um mestrado em biologia e é um perfeito exemplo do renascimento do budismo no país.

Dois monges na porta de entrada da escola budista, no mosteiro Gandan Tegchenling, em Ulan Bator. Erguido em 1853, o complexo de Gandan possui dez templos e abriga 900 monges.

De volta à capital, vou ao monastério Gandan Tegchenling. O complexo de Gandan, construído em 1853, possui dez templos e abriga 900 monges. Entro no pátio e meus olhos não param de seguir os noviços de 10 ou 12 anos, de cabeça raspada e vestes chamativas. Eles me levam até o edifício principal Migjed Janraisig, onde descubro uma gigantesca estátua do Buda da Compaixão, com 26,5 metros de altura. A estátua original foi destruída pelos soviéticos em 1938. O novo Buda, de cobre e recoberto de ouro, foi inaugurado em 1996.

As cinco décadas de obscurantismo russo provocaram uma grande lacuna de conhecimento. A maioria dos monges mongóis recita textos sem dominar o tibetano. Um esforço enorme é realizado hoje para treinar monges na Índia. Gandan, considerado o pólo principal do budismo no país, já recebeu de volta alguns de seus estudantes, os quais ensinam os que não tiveram a oportunidade de viajar.

O monge budista norte-americano Konchog Norbu vive na Mongólia há três anos para dar apoio a esse renascimento espiritual. Depois de despachar 19 estudantes mongóis para o mosteiro Namdroling, no sul da Índia, ele promove agora a visita de importantes lamas à Mongólia. “Queremos restabelecer as práticas e tradições que foram perdidas durante esse meio século”, afirma Konchog.

(http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/clube-de-viajologia/renasce-no-coracao-da-asia, CASTRO, Haroldo, Revista Planeta, Edição 430, Julho de 2008)

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